sábado, 7 de maio de 2011

IGREJA DA REVELAÇÃO DA PEDRA DO ROSÁRIO




O PASTOR DA IGREJA DA REVELAÇÃO DA PEDRA DO ROSÁRIO

Plínio não agüentou: puxou as algemas que estava guardando para se atar ao Machadão no dia da implosão de Micarla e disse, mais brabo do que a entrevista de Carlos Eduardo a Cefas Carvalho:

- Se você continuar com essas mentiras, eu vou me amarrar em Nazaré até você me mostrar Jesus!


Ai, meu Deus do Céu!
Leonardo Sodré
Jornalista

Há duas semanas, um grupo de estudantes de fotografia foi assaltado na Pedra do Rosário, no Centro Histórico de Natal.

A mídia deu um tremendo espaço para o caso e a maioria das máquinas fotográficas roubadas por três bandidos adolescentes foram recuperadas. Mesmo assim, num sábado, a Associação dos Fotógrafos do Rio Grande do Norte (Aphoto) e o Sindicato dos Jornalistas (Sindjorn) resolveram realizar um protesto pelas ruas do centro, que atraiu grande número de fotógrafos e simpatizantes.

Depois, por inércia, a maioria foi atraída para o quente Bar de Nazaré, nas proximidades do Beco da Lama, para umas cervejas geladas.

A mesa era enorme, mas, na beirada que dá acesso ao bar, ficou um grupinho capitaneado pelo presidente da Aphoto, Alex Gurgel, que, em pleno meio-dia, vestido de preto, suava tal qual um cortador de cana. Lá para as tantas, depois da primeira grade de cerveja, ele coçou o queixo e disse olhando para o Céu, que estava nublado:

- Eu tenho certeza que aqueles bandidos não atiraram na gente por causa de Deus...

E ficou olhando para o Céu, enquanto alguém confundia o suor que descia nas proximidades do bigode com uma lágrima faceira e desinibida.

O poeta Plínio Sanderson olhou desconfiado, mas ficou calado esperando o restante do relato de Alex, que até então era um cristão “não praticante”.

Com a voz mais rouca do que o normal – atribui-se à emoção -, Alex continuou:

- Na hora do assalto, eu rezei muito. Muito mesmo! E, com fé!

- E qual foi sua oração, infeliz? Você não sabe rezar! Disse Plínio Sanderson, absolutamente desconfiado do relato.

Aí, Alex colocou meia pálpebra nos olhos e, parecendo um santo, respondeu:

- Eu fiz uma oração poderosa...

- Pois repita! Disse o poeta ensandecido, cada vez menos crente.

- Eu clamei a Deus, dizendo: Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Umas cem vezes...

Todos os olhares da mesa estavam convergidos para Alex, que havia se levantado e colocado os braços para o alto com as mãos espalmadas, em êxtase.

- Nazareeeeeé, traga outro “montola" para que eu possa agüentar as loucuras que estou ouvindo! Disse o poeta com olhos arregalados e sem acreditar na fé que o presidente da Aphoto professava.

O bar ficou dividido. Uns acreditavam que Alex havia finalmente encontrado o caminho da Igreja. Uma mulher que tomava uma lapada de cana no balcão, declarou:

- Também, ele mora bem pertinho da Igreja do Galo... Um dia, Santo Antônio ia entrar no coração dele...

- Esse imbecil está dizendo que fomos salvos por causa de uma reza repetitiva. Nós fomos salvos porque não reagimos e por causa do meu olhar de ódio para aqueles bandidos miseráveis!

Aí, Alex, bem sério, após tomar mais um copo de cerveja, disse baixinho, fazendo com que todos esticassem o pescoço para ouvir sua voz, cada vez mais rouca:

- Eu vi Jesus naquele momento...

Plínio somente não explodiu porque o pavio estava longo, a montola tinha sido servida com bastante gelo e a Coca-Cola era normal. Mesmo assim, perguntou, olhando fixamente para o rosto de Alex:

- E com quem Jesus se parece? Diga! Diga! Diga! - Bradou.

- Antes de dizer com quem Jesus se parece, quero informar a todos que vou me entregar a Ele completamente.

- Vai para a católica ou para os crentes? - Perguntou a magérrima garçonete de Nazaré, que ia passando e ouviu a conversa.

- Nem uma, nem outra. Lembre-se que eu sou um empreendedor. Já mandei Cléo comprar uma bíblia em inglês, porque também vou aproveitar a recepção da minha escola Practical para fazer uns cultos três vezes por semana. Vai ser a Igreja da Revelação da Pedra, em homenagem ao aparecimento Dele, Jesus, naquele dia que poderia ter se transformado numa tragédia!

Uma das meninas assaltadas, que estava na mesa, perguntou:

- Espere... Bíblia, em inglês?

- É. Eu vou inovar e pregar tudo em inglês. Antigamente, as missas não eram em latim?

- Mas ninguém vai entender nada... - Disse a assaltada, de forma insistente.

- Tem tanta música que o povo escuta em inglês, não entende nada e adora... Sorriu Alex, o pastor da Rua das Laranjeiras.

Aí, Plínio inquiriu novamente:

- Não fuja da pergunta! Com quem Jesus se parece?

Aí, Alex, bem sério, respondeu:

- Ele é todinho o artista plástico Franklin Serrão!

Plínio não agüentou: puxou as algemas que estava guardando para se atar ao Machadão no dia da implosão de Micarla e disse, mais brabo do que a entrevista de Carlos Eduardo a Cefas Carvalho:

- Se você continuar com essas mentiras, eu vou me amarrar em Nazaré até você me mostrar Jesus! - Gritou.

Nesse momento, vem chegando o poeta Eduardo Alexandre.

Vinha diferente, parecia que tinha visto alma. Sentou-se, pediu uma cerveja e disse:

- Passei por uma experiência extraordinária. Meu automóvel não quis pegar de jeito nenhum. Estava parado defronte à Catedral Metropolitana. Então, eu, que não tenho muita fé, mas gosto de novas experiências, olhei para dentro da igreja e disse a Jesus:

- Homem, dê uma mãozinha, senão, quando eu chegar ao Bar de Nazaré, não vai ter mais nenhuma cerveja gelada. Pois bem, de repente, na primeira virada da chave, o carro pegou. E fez com a boca o barulho: "Vrummmm”.

Todos os olhares estavam fixos em Dunga:

- Depois, quando olhei para o beco lateral da igreja, que dá para o Instituto Histórico, eu vi Jesus...

- Assim não é possível! - Bradou Plínio – Agora, diga, para ver quem é o mais mentiroso: com quem Jesus se parece?

- Bem... – Dunga coçou a barba por fazer –, eu achei Ele muito parecido com Franklin Serrão...

22 de setembro de 2009

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Breve História do Machadão




Um pouco da História do Machadão
Entrevista a José Alexandre Garcia, Jornal Dois Pontos - 1985

Encerrei minha presença como dirigente esportivo prestando um serviço a Natal. No final do seu governo, Dinarte Mariz - como todo político que está em campanha - chamava as diversas entidades classistas para perguntar quais eram as necessidades de cada uma. E procurava atendê-las, contanto que seus dirigentes se comprometessem a apoiá-lo.

Quando ele reuniu os desportistas para saber quais eram as nossas reivindicações, nós respondemos: “ Governador, nós queremos um estádio”. Ele então se comprometeu: “Eu prometo a vocês fazer um estádio”. Como já estava em fim de mandato, nós sabíamos que ele não tinha condições de realizar aquela obra. Decidimos então pegar o homem na palavra e conseguir dele pelo menos um bom terreno para o estádio. Foi quando escolhemos este terreno onde hoje é o Castelão.

Nossa comissão era composta por Salatiel Silva, então presidente da Federação, Aluísio Menezes, eu, Antônio Soares Filho, João Machado, e Moacir Gomes da Costa. Quando nós escolhemos aquele terreno, no dia seguinte um jornal de oposição nos brindou com um editorial nos chamando de lunáticos, malucos, imbecis, e outros adjetivos desse quilate, porque, em vez de fazermos um estádio para Natal, nós íamos fazer um estádio para Parnamirim. O pessoal não tinha a menor visão de futuro...

Conseguimos aquele terreno mandando Moacir Gomes ao Rio de Janeiro conversar com o velho Saturnino de Brito, que era então o dono da Companhia de Saneamento de Natal, a quem pertencia o terreno. O Estado se propunha a permuta de terrenos com a Companhia, com aquele, mas a direção local era contra. Saturnino encantou-se com Moacir e reviu nele, o Saturnino de Brito da juventude. Graças a isso, conseguimos sua concordância e o terreno foi doado a Federação.

TICIANO - A bem da verdade, você que acompanhou a história desde o começo, diga-nos quais foram as figuras da cidade que realmente contribuíram para que Natal tivesse aquele estádio?

JOSÉ ALEXANDRE - Primeiro, a gente tem que citar Dinarte Mariz, que fez a doação do terreno à então Federação Norte-riograndense de Desportos. Coincidentemente, no último dia de governo de Dinarte, encerra-se também o mandato de Salatiel à frente da Federação. Salatiel então, sem consultar ninguém, baixou um ato onde dizia: “Denominar-se-á Dinarte de Medeiros Mariz o estádio a ser construído em Lagoa Nova”.

Vocês hão de convir que Aluísio Alves, naquele clima de radicalismo que existia, jamais poderia contribuir para que o estádio fosse construído e servisse para homenagear seu adversário. Depois de Dinarte, nós tivemos a figura de Djalma Maranhão, que tinha em seus planos à frente da Prefeitura de Natal, construir o estádio. Mas só na gestão de Agnelo Alves foi que se partiu objetivamente para realizar a obra.

Foi então criada a FENAT (Fundação de Esportes de Natal), que encontrou o terreno parcialmente cercado por Djalma Maranhão, que também tinha mandado construir umas salas que serviram como canteiro de obra. Assim, devemos a construção principalmente a Agnelo Alves, que era o prefeito; a Ernani Silveira, que foi o primeiro presidente da FENAT; e, posteriormente, ao prefeito Ubiratan Galvão.

Na fase de Agnelo, nós construímos as gerais e as intermediárias, em regime de administração direta. Eu, como diretor-adiministra tivo, Ernani como presidente da FENAT, Rossini Azevedo como diretor-financeiro, fizemos um pacto pelo qual nenhum documento referente a despesas deixaria de passar sem a assinatura dos três. Levamos muitas cantadas, mas nenhum de nós cedeu. É tanto que, quando Agnelo foi cassado e foi criada a comissão de inquérito sobre o Castelão, a própria comissão reconheceu a lisura com que a FENAT trabalhou.

O estádio acabou sendo inaugurado pelo governador Cortez Pereira que também era um entusiasta da obra, e pelo prefeito Jorge Ivan, mas, sem dúvida, o grande trabalho foi de Agnelo Alves e de Ubiratan Galvão. Ainda coube a mim organizar toda a parte administrativa do estádio. Organizei as portarias, as bilheterias... Mas depois verifiquei que aquele trabalho estava ficando pesado demais, pois ao meio-dia já estava tomando conta do estádio. Isso foi na época do primeiro Campeonato Brasileiro, quando passaram por Natal as maiores equipes de futebol do Brasil. Quase sempre o estádio lotava. Era um trabalho incrível !

Lembro ainda que na condição de diretor da FENAT evitei que fosse consumada uma grande injustiça. Na época da construção do estádio, nós vendemos cadeiras cativas a Cr$ 1.500 cada, para serem pagas em 30 prestações de Cr$ 50. Foi quando Agnelo Alves comprou cinco cadeiras: uma para ele, outra para a mulher e as demais para os filhos. Cassado e na “lona”, ele atrasou o pagamento das prestações. No dia da inauguração do estádio, a administração de então não convidou Ernani Silveira nem Agnelo.

Eu então fui autor de uma proposta: Agnelo tinha pago diversas prestações das suas cinco cadeiras, que, se somados os valores dessas prestações, daria para quitar duas. Por que então não considerar pagas duas das cinco cadeiras que ele havia comprado? Depois de uma luta, a proposta foi aceita e Agnelo não perdeu de todo o que tinha pago. É provável até que ele não saiba disso, mas fui eu o responsável por ele ter ficado com duas cadeiras cativas no estádio, hoje impropriamente chamado “Castelo Branco”.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Cascudo e Car(na)téis


Plínio Sanderson


Verossímil ao tempo, a terra não pára. A proximidade com o solstício de verão austral, traz a estação do desejo aos trópicos dos pecados tórridos. Um fim de ano marcado por dois eventos emblemáticos, mas díspares: a I Mostra de Cultura Popular, promovida esplendidamente pela Secretaria Estadual de Educação, e, no extremo antagônico, o Carnatal, produzido pela Destaque.

A Mostra revelou o elefante e suas entranhas mais sagradas: o sincretismo cultural. A idéia da profª. Isaura Rosado de pragmatizar a educação via cultura é antídoto infalível contra a homogeneização global da aldeia. A invenção e a auto-estima popular se reencontram em suas vestes mais íntimas: Bois Calembas, Fandangos, Pastorinhas, Caboclinhos, Cheganças, Lapinhas, Congos (de Saiotes ou Calçolas), Ararunas, Maneiros-paus, etc. Tatuando nos corpos (docentes e discentes) práticas quase extintas ou semi-desaparecidas do imaginário coletivo. Cascudo redimido acenderá charutos, regozijando-se ao deleite das peripécias da massa em evoluções.


O Carnatal, maior evento do estado, encontrou porto seguro na nossa cidade, sempre travestida de modernidade, seduzida pelo “outro”, fadada à aculturação. A Baianidade, azeitada pelo caldeamento de todos os santos e raças, lança ritmos e concomitantemente consolida mercado, numa estratégia perfeita - sem crise, nem baixa estação.


Os defensores proferem argumentos hiperbólicos (“é o maior fora de época do...”) ou naturalizam (“é gerador de renda e emprego”).


De um lado, o Carnatal, do outro, a fome geral catando latinhas.


Papangus modernosos, fantasiados de abadébeis e a corriola, pipocando além das fronteiras marginalizantes das cordas. Aqui, essa indústria transforma e transtorna a cidade, que passa por toda uma reengenharia do trânsito, da iluminação, na segurança/policiamento e na saúde, os serviços públicos tornam-se otimizados, com aparatos eficientes, enquanto que, no cotidiano real...

Car(na)téis. Na horda da política (estadual e municipal) orbitam vereadores, deputados, secretários interagindo numa clara intervenção estatal no processo de acumulaçãode riqueza, introduzindo novos elementos para dinamizar a economia, sob a égide do turismo e do folclore artificial. A configuração do poder local, em comunhão com os principais grupos econômicos, sincronizam interesses ávidos, que convergem para a sustentação da animosidade carnabestial.

O escritor Giba Felisberto Vasconcelos, brincava no Bar Mintchura em meados dos 80, apelando para Maiakovski, "se existe um homem feliz, é lá no Brasil, afirmava convicto, e só pode ser o Cascudo". Giba, colunista da revista “Caros Amigos”, cita e recita o “Príncipe do Tirol” em todos os seus artigos. Recentemente, chama o Luís da Câmara de “o filósofo do povo brasileiro”. E critica a “professorança universitária”, que prefere erigir pensadores estrangeiros como Lacan, Fucô, Weber, e não leva a sério o santo (de casa) fazedor de milagres. “O pior de tudo que nem mesmo em Natal, aonde o mestre veio ao mundo, ele não é assimilado na Universidade e em outras instituições, ou seja, a sua obra ainda não se converteu em força material. Para desgraça e infortúnio do povo potiguar”.


O advento da Mostra Popular deve simbolizar a pedra fundamental no resgate de nossa memória. Quem sabe, inaugurar uma cruzada pela inserção da disciplina “Literatura Norte-riograndense” na grade curricular – em estados vizinhos, já se cobra em concursos o conhecimento em suas literaturas peculiares. Não é apenas reserva de mercado, mas uma forma eficaz de cultuar personagens, imortalizando-os através de suas obras. Uma leitura ou grafia, atribuindo sentido aos espaços imagéticos do RN, revisitando desde a concretude processual (o “suspenso” de Jorge Fernandes; os visuais e semióticos de Falves; A. de Araújo, Jota Medeiros), até a identidade com o chão profundo no nativismo de Itajubá, Auta, Manuel Dantas, Palmyra, Otoniel...

Vivalha a lamaravilha. A SAMBA (Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências), em movimento de resistência ao estorvo micareta, realiza o II Carnabeco, homenageando foliões etéreos e eternos: Maestro Mainha, Lelo Melodia, Blackout, Boscopeta.


Axé ou ôxente? Um paralelo de parabélum na língua - mais forte são os saberes do povo!


Publicado Jornal de Hoje - 12/03/05


sábado, 6 de novembro de 2010

Endereço novo


Eduardo Alexandre Garcia

Av 7, 1093 - Tirol. Plano Jeremias.
Eu. de endereço novo.

artigo argumentativo a respeito da "construção" errônea, digamos, da expressão 'Plano Palumbo'. E nele há toda uma contextualização da história de Natal.
Sérgio Vilar

Vale lembrar que o dito logradouro histórico, cultural e etílico é a maior concentração de doido por metro quadrado de Natal.
Jeremiaaaaaaaaaaaaaaaaassssssssss.
Franklin Serrão

Palumbo? Por Justiça, Plano Jeremias desmistifica essa história de chamar os bairros de Petrópolis e Tirol como 'Plano Palumbo'. Tudo isso começou com uma fantasia de nossa Abelhinha que foi na onda de um zangão dado a lendas e fábulas.
Woden Madruga

Vindo da esquerda da lagoa de Manoel Felipe, o riacho Tissuru ganhava águas sobradas desta e seguia rumo à cruz do Baldo, Bica, dando de beber à povoação que dormitava à direita, em claros habitada até o topo da duna, Cidade Alta, e seguia descendo, até proximidades da feira da Tatajubeira, na campina da Ribeira, adjacências do porto novo, esplanada que começava a trazer desenvolvimento para a pequena capital.
Eduardo Alexandre

Desmistificou o tal Palumbo. Viva Jeremias!
Alex Gurgel

ao invés de palumbianos, somos mesmo é jeremianos.
Chico Lira

Que tal um Projeto de Lei para mudar o nome de Tirol para Solidão?
Leonardo Sodré

passou pelo crivo do WM, instalou a polêmica e ainda tirou onda.
Antoniel Campos

http://bit.ly/bB6zXg




segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A onda tuiteira

A onda tuiteira
Eduardo Alexandre

O Twitter veio para ficar. Hoje, já é usado como febre que mantém crescente o nível de mercúrio do termômetro clínico. Muitos o usam. E passam o dia tuitanto. Entre os nossos, desde a governadora Wilma de Faria à abelhinha de plantão, Eliana Lima. Isso, sem falar nos senadores Garibaldi Filho, Zé Agripino e Rosalba Ciarline. O deputado João Maia, o presidente da Assembléia, Robinson Faria, o vereador Edivan Martins. Até o papangu Túlio Ratto tuíta de Mossoró.

O Twitter é um blog universal aberto a seguidos e seguidores, no qual o usuário digita uma mensagem com o máximo de 140 caracteres. A proposta do Twitter é simples, e lhe questiona: What are you doing? Ou seja, o que você está fazendo? Só que as pessoas foram muito além dos seus passos e passaram a dar informações valiosas para o dia-a-dia umas das outras.

Assim, ficamos sabendo, na hora, o que está acontecendo no mundo: tudo vai depender de a quem você segue. Se segue o jornalista Ricardo Noblat ou Josias de Souza, vai saber, via informe e link do Twitter, as últimas notícias da política nacional. Se seguir o humorista Millor Fernandes, vai se divertir com suas reflexões bem humoradas: "O cara está mesmo velho quando transa com uma mulher de 40 anos e é acusado de pedofilia". Para jornalistas, esses seres que passam o dia recebendo informações em primeira mão, é uma maneira de estar ligado o dia todo com o seu público leitor, repassando, uma a uma, as notícias que lhe chegam.

Para os políticos, é uma forma de contato com seu eleitorado, dizendo o que pensa e o que anda fazendo. Assim, Garibaldi pode dizer que "Finalmente estou podendo retornar a Brasília para retomar minha rotina legislativa." Ou Edivan Martins deixar o questionamento: "O que houve com a cantora Eliane que não se apresentou na vaquejada do Parque Afrísio Barros em Santo Antônio do Salto da Onça?"

A médica e dramaturga Clotilde Tavares amanhece no Twitter, acordando o povo:
"Acordar todos os dias e transformar o mundo", já dizia Julian Beck! Eu tou nessa, twitteiro amigo, e vc? Bom dia". Tem uns que ficam dando resultados de jogos; outros, o que está passando na TV ou acontecendo nos plenários de Senado, Câmara, assembléias legislativas e câmaras de vereadores.

O jornalista Ricardo Noblat, que tem o blog político mais visitado do Brasil, a exemplo de muitos blogueiros, a cada nova postagem, envia aviso a seus leitores, via Twitter. E assim fazem milhares de blogueiros mundo a fora. Noblat ficou tão fissurado no Twitter, que nos últimos capítulos da novela global "Caminho das Índias", passou a comentar as cenas apresentadas.

O Twitter tem tanta eficiência que até anima a jornalista Thaisa Galvão a questionar:
"Quer dizer que estão assaltando a mão armada no estacionamento do Midway? E ainda abafam o caso?" Anima Alex Medeiros, também jornalista, a cutucar o cão com vara curta: "Desde o deslize de Arthur Virgílio, o Senado entrou num acordão entre governistas e oposicionistas. Nem DEM nem PSDB falam da Ideli Salvatti".

Hoje, a governadora Wilma tuitou: "
Assinei agora documento criando oficialmente a Delegacia de Defesa dos Idosos." O ex-presidente do PSDB e o também ex(?) secretário da sigla no RN, Geraldo Melo e Chagas Lourenço, também tuítam. E Chagas é cheio de muganga: "Quem não pode com o pote, não pega na rodilha." E assina: Zezinho lá de Santa Cruz."

Zé Dias, o produtor de Khristal, usa o Twitter para informar sua agenda de shows e dar palpites sobre assuntos diversos. O Gerimum Audiovisual usa o Twitter, também o Rosa de Pedra. Assim como o comentarista político Jânio Vidal e o seu bem humorado irmão Casciano, que deixou reclamação de si mesmo: "
E os problemas do blog persistem. Vou começar a mudar quem anda mexendo nele. Talvez resolva."

Talvez resolva mesmo. E por aí vai o Twitter, ganhando mundo e celebridade. Nele, para jornalistas, políticos e pessoas que necessitam de público, vale mais ter seguidores que seguir. Em compensação, se você sabe escolher bem a quem seguir, vai encontrar curtas informações em profusão, todo dia e o dia todo, a todo minuto.

Tem uso pra tudo o Twitter. Saiu da esfera do "o que estou fazendo" da idéia inicial para se tornar um poderoso canal de informação da grande rede mundial de computadores.

Eu, agora, particularmente, acordo todos os dias ansioso por novas tuitadas da bela
Kim Kardashian. E ela nunca vai nem saber quem eu sou.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Natal 2014

Que venha 2014
Eduardo Alexandre



Fato irreversível para a História de Natal, Natal sede de Copa do Mundo em 2014, a cidade volta a ter olhos do mundo sobre ela. Como na Guerra, Trampolim da Vitória, Parnamirim Field, yes, my friend.

Agora, olhos esportivos, ávidos pelo que é de mais belo no futebol: o gol.

Dos escombros do Machadão vai surgir uma outra Natal.

Dirão: Cidade do já teve! E se os escombros ficarem como os da ponte férrea dos ingleses, nos Igapós? Ou como só lembrança de foto como a sede social de Petrópolis do ABC e SCBEU? Tudo para a realização de 2 ou 3 joguinhos sem importância?

Mas futebol é bola pra frente. Copa? Um fato histórico para o mundo. Sede? Uma vitrine. Sorte de quem tem sorte.

E a sorte está lançada.

Vai haver a implosão, dando lugar a tudo novo e mais moderno, centros administrativos maiores, de governo e prefeitura. Não poderia ser noutra área?

Espero não ponham abaixo o monumento à João Paulo II.

E torcer para que dê tudo certo e isso traga venturas para os que vêm e para todos nós natalenses.

Como o futuro ainda não é agora, acho, o espírito da Natalópolis tem que ser incorporado como prática. Já!

A cidade e o estado estão dominados por notícias de alto índice de violência no meio social. Vamos acabar com isso.

O estado e a cidade vivem décadas de problemas de assistência médico-hospitalar. Vamos ter assistência para o povo.

Vamos ter praia limpa, sem esgotos que cheguem ao mar.

Vamos ter trem de superfície e ônibus com hora certa, sem super lotação, em número suficiente.

Sim, vamos ter melhores salários e maior poder aquisitivo. E vamos ter empregos suficientes.

Vamos nos modernizar a nós mesmos.

Cultura em praça aberta. Receber com arte.

As mil maravilhas, não será.

Mas que ser sede de Copa vai ser muito bom para a cidade, vai, sim.

Que venha 2014!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

ASSOMBRAÇÃO

Um beco sem a lama não é beco
Um beco sem a alma não tem lama
Um beco que não assombra não aponta
Um beco que não aponta não faz sombra
Um beco que não assombra não tem vida
Um beco que não tem vida não é beco
Um beco sem a vida não projeta
Um beco sem projeto não se cria
Um beco que não cria não produz
Um beco não produzindo gera o nada
Um beco sendo nada não tem arte
Um beco sem a arte não renasce
Um beco com  arte recria a vida
Um beco recriando faz a arte
Um beco fazendo arte se completa

Elder Heronildes



Nas primeiras décadas do século vinte, os iniciados modernistas, capitaneados por Oswald de Andrade, tinham um reduto de encontros etílicos e culturais na Rua Líbero Badaró, no centro da capital paulista, o qual denominava a “garçonniere”, onde aconteceram os registros das primeiras discussões modernistas que antecederam a Semana de 22. Nessa confraria, os modernistas escreveram um diário coletivo, culminando no livro “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo”, com duzentas páginas, expondo a intimidade daquelas pessoas com cartas, recados, recortes, colagens, cores, tintas, desenhos, poesias, prosa e um pouco do pensamento pré-modernista do grupo, que mais tarde explodiria com a Semana de Arte Moderna.

Este “diário da garçoniere” é um embrião do livro “Miramar e Serafim”, cujo tema Oswald de Andrade buscou registrar o espírito modernista num mundo em transformação, cabendo esperanças para uma nova forma de fazer poesia. “Muito de arte entrará nestes temperos, arte e paradoxo, que, fraternalmente se misturam para formar, no ambiente colorido e musical desse retiro, o cardápio perfeito para o banquete da vida”, escreveu Oswald sobre aqueles encontros modernistas.

Resguardando as devidas proporções, o Beco da Lama, no centro da capital potiguar, tem sido a veia nevrálgica de vanguarda cultural do Estado. Para o leitor ter uma idéia da importância da confraria bequiana, quando em São Paulo, os modernistas proclamavam o novo estilo literário vigente com o “Manifesto Antropófago”, o poeta Jorge Fernandes fazia versos modernos como “O banho da Cabloca”, “Tetéu” e outros, no Beco da Lama. Vale ressaltar que o poeta Jorge Fernandes morava na Rua vigário Bartolomeu, rua paralela ao Beco, portanto, um freqüentador assíduo da boêmia natalense. Alguns professores da UFRN costumam dizer que Jorge Fernandes fez poesia modernista na própria "fase heróica" e, na época que Jorge Fernandes lançou seu “Livro de Poemas”, a idéia de modernismo ainda era muito frágil no Brasil, sobretudo, no Rio Grande do Norte. De acordo com os estudiosos da literatura local, Jorge Fernandes foi recomendado por Manoel Bandeira, tardiamente, quando soube da poesia jorgiana, escrevendo em carta à Veríssimo de Melo: “Precisamos urgentemente da poesia do poeta Jorge Fernandes. Urgentemente!” O poeta Jorge Fernandes teve seus textos veiculados nas principais revistas modernistas paulistas, no clamor do modernismo.

Quando Oswald de Andrade se formou em Direito pela Universidade de São Francisco, seu pai, percebendo o talento jornalístico do filho, patrocinou a abertura do periódico “O Pirralho” para que Oswald pudesse escrever e expressar seu pensamento. Na mesma época em Natal, o pai de Câmara Cascudo montou o jornal “A República” logo depois que o Príncipe do Tirol se formou em Direito, pela Universidade de Recife. Cascudo era freqüentador costumeiro do Beco da Lama, era sempre visto entre amigos pelas ruelas do Beco ao cair da tarde, buscando inspiração para mais uma “Acta Diurna” que seria veiculada nas páginas d’A República no dia seguinte.

Segundo a historiografia da literatura local, Luís da Câmara Cascudo é considerado "a ponte" entre Jorge Fernandes e Mário de Andrade. Cascudo é quem introduziu as idéias sobre modernismo no Estado, afirmando na sua obra que Natal havia nascido no século vinte, tendo "dormido literalmente" nos séculos anteriores. Para o escritor e crítico literário, Moacy Cirne – morando no Rio de Janeiro, é um freqüentador esporádico do Beco –, só há dois momentos importantes na Literatura Potiguar: o primeiro com o modernismo de Jorge Fernandes em 1927 e o outro com o advento do “poema processo”, em 1967. 

Nas paredes da garçonniere oswaldiana havia quadros de Di Cavalcanti, Tarcila do Amaral, Anita Malfatti, entre outros artistas modernistas. Entre os freqüentadores daquela confraria paulista, havia as musas que freqüentavam as tertúlias literárias e uma delas era a normalista Maria de Lourdes, que os modernistas chamavam de Deisi (ou Miss Ciclone), símbolo da mulher moderna, independente, jovem, bonita e talentosa. Ao longo do tempo, o Beco da Lama tem sido palco para as mais diferentes beldades que vem inspirando poetas, prosadores e recheando os textos de alguns contadores de sonhos. Gardênia Lúcia foi durante muitos carnavais a sereia dos mares metafóricos dos poetas bequianos. Há relatos que um determinado Imperador apimentado do Beco da Lama foi vítima dos encantos de Gardênia, tendo ficado desaparecido por muitas luas.

Nas artes plásticas, a primeira exposição norte-riograndense, assumidamente modernista, foi realizada pelo artista plástico Newton Navarro, em 1948, numa sorveteria no centro da cidade, adjacências do Beco da Lama. Na contemporaneidade becodalamense, quadro de artista plásticos potiguares, do quilate talentoso de Valderedo Nunes, Assis Marinho, Franklin Serrão, Marcelus Bob, Léo Sodré, Gilson Nascimento, Fábio Eduardo, Marcelo Fernandes e outros artistas, retratando, nas paredes do bar de Nazaré, o cotidiano do Grande Ponto, expressando as marcas da vanguarda cultural dos freqüentadores do Beco da Lama.

Enquanto os fragmentos literários, produzidos durante o tempo da garçonniere pelos modernistas, viraram um diário coletivo, anotações poéticas que se transformaram num livro, registrando a inquietação daqueles intelectuais, a Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências – Samba – mantém uma lista de discussão na internet, aonde recortes e colagens antropofágicas vão registrando a ebulição cultural vivida nesse recanto da Cidade Alta. O pensamento dos freqüentadores da “garçonniere becodalamense” está estampado nas páginas de um blog na internet, “Alma do Beco”, cujas idéias são as mais profundas tentativas de revisão crítica e de reconstrução da cultura potiguar, que demandou a pesquisa e a abordagem poética de fontes do passado.

A Alma do Beco é a junção dos recortes literários, produzidos através dos sonetos de Antoniel Campos, das glosas fesceninas de Laélio Ferreira, dos pés-quebrados de Chagas Lourenço, dos poemas de Eduardo Alexandre, Luiz Carlos Guimarães, Márcia Maia (poeta pernambucana)
, Nei Leandro de Castro, Yasmine Lemos, Barbinha dos Santos, Ferreira Itajubá, Newton Navarro, Cristina Tinoco, Elder Heronildes e tanto outros poetas que passaram pelo Beco.

Neste mundo virtual, também há espaço para as crônicas, ensaios, pesquisas, história do Estado, fotos de quase todos os confrades e confreiras dessa garçonnieri potiguar. Uma das mais interessantes descrições sobre o Beco da Lama é a epígrafe do blog na internet: “Beco da Lama, o maior do mundo, tão grande que parece mais uma rua... Tal qual muçulmano que visite Meca uma vez na vida, todo natalense deve ir ao Beco libertário, Beco pai das ruas do mundo todo”. Com o lançamento do jornal impresso “O Beco”, os confrades ganham uma voz para registrar os fartos banquetes literários das almas virtuais deste mundo bequiano. Um instrumento capaz de abrir o verbo e gritar a essência da vanguarda do Beco da Lama: Poti or not Poti, that’s Potengi!
 
Alexandro Gurgel