terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A PRAÇA DA ALEGRIA DOS NOSSOS DIAS



A PRAÇA DA ALEGRIA DOS NOSSOS DIAS
Eduardo Alexandre

Natal nasceu na Cidade Alta.

Desde sua fundação, em 25 de dezembro de 1599, foi a Cidade Alta o palco dos ajuntamentos sociais de Natal. Sacros e profanos, a princípio na Praça da Alegria, que, após a morte do padre João Maria, em 1905, tomou seu nome a partir de resolução assinada pelo intendente Joaquim Manoel Teixeira de Moura, em 11 de julho de 1906.

Nesse início de século XX, os acontecimentos profanos vieram para a Rua da Palha, que tomou a denominação de Vigário Bartholomeu.

O maior ajuntamento cotidiano de pessoas, as festas da cidade, durante décadas deste século, foram ali perto da antiga Praça da Alegria e da antiga Rua Palha, cidade crescendo rumo aos morros do Tirol: o Grande Ponto.

O Beco da Lama no meio do alvoroço do crescimento da cidade.

Beco da Lama por ser o escoadouro das águas servidas que vinham dos fundos das aristocráticas residências da Vigário Bartholomeu e Rua Nova, depois Avenida Rio Branco.

Beco da Lama estigmatizado pelo nome. Mas Beco buscado pela boemia discreta, ciosa de música e conversa boa longe do ruge-ruge barulhento do entorno.

Por ali, transitava Cascudo, saído do Café Grande Ponto, depois Café Avenida, em busca de novas informações e divertimentos no Potiguarânia, depois Café Magestic, defronte do Royal Cinema, esquinas de Vigário Bartholomeu com Ulisses Caldas. Prosas e prosas, poesia, com Jorge Fernandes, poeta modernista residente na Rua da Palha, cujo fundo de quintal dava para o Beco da Lama.

Quando cansado de suas décadas de dedicação à Academia Norte-riograndense de Letras, Manoel Rodrigues de Melo se dirigia ao Beco. Queria conversa com Berilo Wanderley, Luís Carlos Guimarães, Newton Navarro, Bosco Lopes, amigos que sabia encontraria ali para partilhar uma teutônica, como chamava a cervejinha do desprendimento.

Quando Nasi Canaã se estabeleceu na esquina da Rua Doutor José Ivo (Beco da Lama) com a Cel. Cascudo (pai do etnólogo folclorista), e popularizou entre nós a 'meladinha', o doutor Manoel de Brito vez dali parada diária.

E quantas não foram as figuras de importância e sem importância alguma que fizeram dali pouso de cura para as agruras dos dias?

O Beco estigmatizado pela lama que já não mais havia, com o surgimento da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (adjacências sugeridas pelo poeta Volontê para dar consistência à sigla), a querida SAMBA, tomou gosto de festa e muitas vieram para trazer a população tangida pelo crescimento da cidade de volta ao seu centro histórico, berço.

O respaldo de toda a gente que se fez presente às centenas nessas festas foi fator de importância para que o Beco se tornasse um referencial de cultura da cidade. Esse respaldo de amor popular fez com que a nossa Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, voltasse vistas para uma possibilidade concreta de transformar toda aquela área central e também a Ribeira como algo digno de preservação, e tudo se transformou, em 2010, em Patrimônio Histórico Nacional.

É essa conquista de tantos que agora está ameaçada de retrocesso por uma intriga mesquinha de vizinhas que levaram querela ao Ministério Público do Meio Ambiente, que, aferrado a rigidez que compõe leis mal escritas, hoje impõe o fim da festa.

Festa que divulga e traz benefícios, traz emprego, traz turistas.

Por tudo isso, políticos e populares, artistas, hoje estiveram ali naquela esquina pedindo à cidade que se compadeça dos maus presságios de fim de festa e se imponha através de sua cultura como logradouro que, também por amor, se quer preservar.

O Beco é hoje a Praça da Alegria da nossa cidade Natal.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Natal, a filha de Coité


Natal, a filha de Coité
Eduardo Alexandre

Tenho dito aos amigos que a verdadeira história de Natal começou quando o Casarão de Guarapes, hoje em ruínas, vivia época de glórias. Foi a partir dele que Coité se fez Macaíba e Lagoinha, de comércio tão intenso, foi até cogitada ser capital do Rio Grande do Norte.

Dizia a gente que nos visitava: Natal? Não há tal.

E não havia mesmo.

Quando Fabrício Gomes Pedroza resolveu construi-lo para dele comandar o império que se formaria abaixo daquela colina, margens do Jundiaí próximas ao desague no Potengi, Natal se resumia a uma modorrenta povoação que insistia em nada ser, de tão sonolenta para o desenvolvimento.

A Rua Nova, depois avenida Rio Branco, poucas casas tinha. A Rua Sarmento, que muito depois seria a João Pessoa do Grande Ponto, ostentava casinholas que se contavam nos dedos de uma mão e não chegava a ultrapassar a Rua dos Tocos, que viria a ser a Princesa Isabel dos nossos dias e que nada tinha a mostrar, a não ser os tocos ainda visíveis do desmatamento de 1845, promovido pelo presidente Sarmento.

A Ribeira? A Ribeira era o Caminho da Fortaleza, a Rua da Cruz querendo descer, mas contida pelo fétido braço de rio chamado Salgado a inundá-la e a vasta campina pouquissimamente habitada com seus coqueirais e o sonho de um porto.

Homem de grande visão comercial, mascate já estabelecido e o melhor sucedido nas terras de Coité, Fabrício Gomes Pedroza, dez anos depois do feito de Sarmento, em 1855, constrói um armazém à margem do rio Jundiaí e cria uma feira. Sua importância na localidade é tanta, que ele sugere e Coité, a partir dali, passa a se chamar Macaíba, nome de palmeira que o capitão (paraibano de Pilar ou Areia, pernambucano de Nazaré?), cultivava e tinha predileção.

Depois da criação da feira, aterro dos manguezais das margens e ancoradouro. O Casarão, em 1859, para armazenamento de produtos e moradia, e, ao seu redor, um verdadeiro complexo, incluindo mais armazéns, capela, alojamento para funcionários e senzalas para os escravos.

Coité, agora Macaíba, torna-se ponte para o interior e para o exterior, grandes navios chegando até ali em intenso intercâmbio comercial,
exportando algodão, couro e, principalmente, açúcar.

A partir do desenvolvimento do comércio dali, a história de Natal passa a ser feita por homens que, de uma forma ou outra, dali vêm ou tiveram seus nomes ligados ao legado construído por Fabrício Pedrosa: Amaro Barreto, Pedro Velho, Alberto Maranhão, Augusto Severo, Juvino Barreto, Elói de Sousa, Henrique Castriciano, Joaquim Manoel de Moura, Cel. Estevão, Manoel Duarte e sua viúva Machado, são só alguns nomes dessa história que tem origem em Coité, passa por Macaíba e fazem surgir a Natal como cidade de fato.

Esse reconhecimento, havemos de ter, é só resgatar a história de cada um desses personagens, contando a importância que tiveram para o desenvolvimento de Natal.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O nosso primeiro fotógrafo

Era como um ornato indispensável às festas. Antecipando a sua chegada, a indefectível fotografia, tão regular, tão natural, tão sua e inerente ao seu hábito que, julgamos possível, vê-lo ressurgir vivo e são, na tarde do seu enterramento, para bater mais um chapa fotográfica.

DR. MANOEL DANTAS
Luís da Câmara Cascudo. A Imprensa, 18 de junho de 1924.

A homenagem da Maçonaria ao seu benemérito associado – A sessão fúnebre da Loja “ 21de março”.

A oração de Luís da Câmara Cascudo

Sr. Dr. GOVERNADOR DO ESTADO
IRMÃO DELEGADO
MINHAS SENHORAS
MEUS SENHORES
PREZADOS IRMÃOS

A maçonaria norte-rio-grandense homenageia pela voz deste seu mau escolhido
orador um daqueles vencedores da morte que no verso camoniano se vão da lei da
morte libertando...

Tão alto é este termo do poeta que séculos antes S. Paulo interrogava se a morte
tinha poderio sobre certas estruturas mentais.

E esta a única, a verdadeira consagração. Sai de todos nós, do povo. O Estado
reflete somente o clamor ambiente. A lembrança mais viva é aquela que circula no
ritmo do sangue sem estátua, sem mármore, sem bronze.

Melhor expressão para a saudade não existe senão em nossa curiosidade de
procurar o morto nos lugares por ele frequentado. E às vezes sojigamos o ímpeto de
perguntar se ele apareceu fazendo o jornal ou semeando anedotas.

Manoel Dantas era a síntese do povo. Sertanejo, praciano, geógrafo e matuto,
advogado e um vivo anedotário, jornalista mestre pela capacidade de trabalho, fingia
receber lições de qualquer um.

Sairia do Sertão. Não este Sertão cinematografado em “posse” de vigiliatura
verânica. Não este Sertão de usos citadinos, mas o sertão autêntico, o sertão de pedra.

O meio físico atuando sobre sua formação anímica asselou-a com os traços de
sua face eterna. É um ambiente dantesco. As serras se erguem despertas e mudas como se o combate geológico as fraturasse subterraneamente. A vista que [ilegível] encontra além do tênue vestido dos capins verdes, da ondulação ciciante do panasco, aquela outra vegetação de pedra, abrupta, angulosa, irrompendo do seio da terra como exclamações de pavor a epopéia titânica das secas.

Deste ambiente ressurge o Hércules. – Quasimodo euclidiano. Trouxe a síntese
da força latente, da resistência espiritual. Consegue reunir a extrema sensibilidade e
fereza extrema. E quando a grande alma sertaneja se expressa num tipo de sua criação e legitimidade – é o cantador, aedo da viola rústica enfestonada de fitas ou vaqueiro, campeador da marroeiros ariscos no mundo intrincado das carrascais e xiquexiques.

A outra face desta terra é pelo inverno. À primeira [ilegível] de chuva o solo
reverdece e há um milagre sereno, como diria o Padre Vieira, confusão verde. A água
desce cortando espelho movente e claro, num reflexo de prata pelo tapete das várzeas.

Neste hiato ao ciclo climatério o sertanejo retempera o aço de sua vitalidade para
o próximo combate. E a sua vida não é que um rápido resfolegar no intervalo das
pelejas.

Este é o meio, este é o cadinho onde se forma a sub-raça dos homens de bronze,
guerreiros dos elementos, semeando a braço forte a civilização e a idéia do mundo no
inferno verde da Amazônia.

De tal seio surgiu Manoel Dantas. Fiel à terra imensa e rude foi ente nós a
grande voz do sertão.

Este porto de incidência entre o sertão e o litoral merece realce. Durante três
dezenas de anos Manoel Dantas conservou-se no vértice deste triângulo. Dos lados
desmesuravam a orla dos litorais com o rosário de cidades e do outro o infinito das
pradarias sertanejas.

O papel social o político devia ser custoso a outro. A ele era a própria atmosfera.
Desta forma a onda sonora encontrava-o para transmiti-la variando, prudente e sereno, o curso e a impetuosidade.

Foi seu magistério, conselheiro privado do Sertão. Conselheiro sem palavras,
mas em gestos, na eloquência das atitudes. Nele se consubstanciava o ímpeto da
vaqueiro e a prudência calculada do cantador.

Através de longa estada na “praça” Manoel Dantas manteve-se sertanejo. Era-o
na linguagem desataviada e franca, na gesticulação natural e pouco cerimoniosa, no
certo de contar anedotas.

Todos nós nos acostumamos à sua figura. Era como um ornato indispensável às
festas. Antecipando a sua chegada, a indefectível fotografia, tão regular, tão natural, tão sua e inerente ao seu hábito que, julgamos possível, vê-lo ressurgir vivo e são, na tarde do seu enterramento, para bater mais um chapa fotográfica.

E perguntávamos como uma criatura viajada e lida, conhecendo sumidades,
tendo sua terra n`alma e na inteligência, pudesse conservar a simplicidade ancestral dos seus maiores.

Não há um de nos que não recorde a sua voz tantas vezes ecoada no brilho das
festas maçônicas. Sob estas abóbadas ouvimo-la soar saudando a bandeira, estímulo,
alegria, mocidade poderosa naqueles dois olhos de eterno rapaz engraçado...
Recordamos essa vida feita de calma e bondade. Aquela voz de mestre sem
palmatória, de político sem vingança, de douto sem orgulho. Lembramos o tique verbal dos tácitos entremeados na conversação, a deselegância de andar, o piso forte, pausado, regular; o conselho meio riso meio seriedade que se orlava nos lábios finos num sorriso de irmão mais velho.

Esta síntese de apuro intelectual e desleixo e esquecimento pelo “modernismo”
era uma fidelidade ao Sertão.

Sempre o senti vestido mentalmente de vaqueiro. Ele nada mais foi de que um
vaqueiro de idéias.

Nunca pode fazer um estudo regular, metódico, seguro de qualquer cousa.
Manoel Dantas bibliófilo e possuidor de cinco mil volumes lia às carreiras, no bonde,
no trem, entre a “prosa” no jornal... Menos por si do que pelos seus encargos conservou-se um gazeteiro de idéias. Feriava-as sempre.

Entretanto o jornal seria feito sempre por si todas as vezes que desejava. Ia do
artigo de fundo ao suelto leve, da crítica à notícia, rápido oportuno, incisivo.

Apreendia as idéias de relance, num vôo d’imaginação, numa presciência.

Quando todos nós esperamos que a idéia venha carreada pela leitura, Manoel
Dantas buscava-a num lance arrojado, num minuto de afoiteza que bem condizia com
ele, neto de vaqueiro, os gladiadores do sertão hirsuto e bravio.

Sob aquela aparência de descanso, de tranqüilidade, de andar igual pelo mesmo
caminho, se escondia imaginação altíssima, romantismo, esperança, todas as virtudes
que pensamos existir nos patriotas verbais.

Entre os de seu tempo nenhum, por mais idealista, concebeu uma cidade ideal
substituindo esta em que vivemos. Viu-a Manoel Dantas, Ali-Babá cheio de pausa e
lento entusiasmo. E foi quem reputávamos o menos idealista dos patrícios donde partiu o gesto mágico, a palavra de encanto para fazer surgir em Natal fantástica, iluminada a milhões de lâmpadas, cidade de ouro, imensa, toda clara, mármore branco de Pentalico, e em volta, o Potengy fazia a lenta ronda meiga com seu dorso d`esmeralda.

Natal daqui a cincoenta anos é uma página de fé. Nele, se pretendêssemos tirar
o melhor de sua esperança, como Pero Vaz de Caminha para a terra moça do Brasil –
dar-se-há nelle tudo.

Manoel Dantas geógrafo era-o na acepção real e ladina do vocábulo. Conhecia a
terra a ele. O esboço coreográfico sobre o Rio Grande do Norte completa uma fase em meu espírito. Em 1918, firmando o que de alto e nobre queria Manoel Dantas ao nosso Estado escrevia-me.

“Os que estudam e amam a nossa terra hão de fazer conhecida com a segurança
que possuímos dela não recear confrontos”.

Outro dirá melhor do político. Só desejo e desta gloria só fico contente dizer
daqui, nesta festa de saudade, que Manoel Dantas se foi político não era da política
brasileira.

Morreu sem um inimigo.

Isso não quer dizer nada de bem. Um homem que sai da linha comum dos
homens, sobe um pouco, o Sol deve iluminá-lo com mais brilho por que ele fica mais
próximo do sol. O mau olhar dos outros deve ser obrigatório. Homem sem inimigos,
sem contestações, sem divergência é uma entidade moderna, sem equivalente na escola zoológica. E Dante assim entendia. Lá está no canto 3 uma multidão que chora obrigada a viver sob um ar sem estrelas e alívio. A esta gente pergunta o Florentino.

Ó mestre que ouço agora?
Quem são esses que a dor está prostrando?
Desse misero modo-tornou-chora
Quem viveu sem jamais ter merecido
Num louvor nem censura infamadora

Manoel Dantas teve inimigos e não poucos. Havia para si a superioridade de
sabê-los vencer sem zangas. Por mais que o adversário multiplicasse os golpes, tinha de si um contendor sereno. E de mãos crispadas caía, naturalmente, o florete ante a
invulnerabilidade tranqüila do inimigo.

No segredo desta força reside a base de sua Vitória. O primeiro que Manoel
Dantas venceu foi ele mesmo. Foi sempre o primeiro na estacada, na liça, na hora
vermelha da luta. Depois silenciava. Estava esperando que chegasse o outro momento de ser útil.

Abnegação! Eis o lema deste querido que a Morte ainda julga ter pedido levar de nosso pensamento.

Se uma criatura falível e feita de humos da terra pudesse viver na casa cristal,
essa seria Manoel Dantas. Nós sabíamos os seus trabalhos, hábitos, o encargo de suas horas, os seus minutos de lazer e onde empregava o dia trabalhando.

Podemos indicar, dada a hora, onde ele seria encontrado. Vencedor de si mesmo
deu-nos ainda, a todos nós que amamos a inteligência, a floração magnífica de sues
filhos, armados pela cultura e pelo exemplo para a mais nobre e linda Vitória no mundo.

Completou a vida. Deixou filhos, livros e plantou arvores. Creio mesmo que
fosse ele a mais digna Expressão de vida cultural e honesta, da força de terra que o
formara, erguera e vinha alimentando como exemplo, louvor e prêmio de sua
fecundade.

Faz-se mister lembrar os dois conselhos. O de Bossnet dizendo que a verdade é
devida aos mortos; o de Machado de Assis explicando que dizer bem dos mortos é uma forma de orar por eles.

Se dissemos a verdade elogiamos o nosso ex-venerável. Oração? Seríamos
dignos de orar por ele? Se este nos deu o caminho sereno da conduta, o riso tranquilo no meio da luta, a esperança entre trovões e tempestades de ódio mesquinho e rastejador, se algo merece não é a nossa oblata – é a saudade.

Eu sei o que perdi. Calou-se umas das raras vozes que ainda possuo na minha
defesa quando mordido. Silenciou, para mim e para o Estado, um de seus mais
devotados e leais filhos. Para a Maçonaria finou-se o irmão modelar, seguro, denodado, altivo, cheio de bem e de amor para com os outros.

Para o Sertão, melhor ele sentirá a ausência daquele que o defendia.

A Maçonaria Norte-Rio-Grandense presta a memória altíssima de Manoel Dantas, a cerimônia de sua saudade. Que ela viva sempre diante de nossos olhos, que nos estimule na estrada que pisamos, que nos momentos de abandono e tristeza possa
erguer-se na nossa alma a voz que emudeceu e sempre ouviremos, dizendo, como tantas vezes disse, a palavra de carinho, de confiança e de coragem.

Foto: Manoel Dantas

sábado, 7 de janeiro de 2012

SOBRE O BAR DAS SOMBRINHAS RECEBI

Caro Dunga:

Sem pretensão de ser historiador, vou lhe contar o que me lembro sobre o bar das sombrinhas que está na foto. Tudo faz crer que é da década de 1930, até pela vestimenta das pessoas que aparecem na foto, principalmente pelos chapéus dos homens.

Naquele tempo, não existia CAERN, o serviço de àgua e esgoto de Natal era uma concessão ao Escritório Saturnino de Brito, cujo desempenho deixou na época a cidade quase 100% saneada, e valiosas obras arquitetônicas e urbanísticas, que, infelizmente, a cultura vandálica predominante nesta "terra do já teve" deixou desaparecer.
Lembro que, já na década de 40, mais ou menos em 1944, no auge da segunda guerra, quando o censo demográfico registrava em Natal uma população de cerca de 55.000 mil habitantes, o contingente de militares americanos representava mais de 10% desta população, com grande influência na vida social, econômica e cultural da cidade, já existia aquele bar, e os alegres e endinheirados militares americanos costumavam frequentá-lo com as meninas igualmente "alegres" da Ribeira. Fui testemunha ocular algumas vezes.

O local era mesmo no inicio da ladeira do Sol, esquina da Rua Dionísio Filgueira com a avenida Getúlio Vargas, onde terminava a linha de bonde elétrico, em frente à casa do Coronel Guerreiro, a qual, por sinal, foi, na ocasião, ocupada pelo USO BEACH CLUB, clube social instituído pelo governo americano em todas as suas bases militares, para divertir suas tropas e fazer sua integração com a população local.

Trouxeram grandes artistas de cinema, e até a famosa orquestra de Glen Miller. Fizeram
um grande show na Lagoa de Manoel Felipe, juntamente com a Tabajaras de Campina
Grande, na qual brilhava o grande clarinetista de Taipu, Cachimbinho.

Fato marcante foi o entusiástico aplauso dos músicos americanos, quando ouviram o desempenho dos músicos nordestinos, sabendo-se que, hoje, quase 70 anos depois, a Tabajaras é a única orquestra no mundo que executa, com perfeição, os arranjos musicais do fabuloso Glen Miller, a ponto de o ouvinte não distinguir realmente qual das duas orquestras está tocando.

Quem deve conhecer melhor os fatos aqui narrados é o historiador Lenine Pinto ou os excelentes pesquisadores da Fundação Rampa, ou, ainda, o histórico piloto Graco Magalhães e os herdeiros dos antigos moradores do velho Petrópolis de Polidrelli e Palumbo.

Forte abraço deste seu amigo, teimoso morador de uma cidade que só existe na
imaginação de alguns

Moacyr Gomes

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Bar das Sombrinhas


Avenida Getúlio Vargas, onde nasceu Cidade Nova - Petrópolis e Tirol.

Dizia-se que a mais mutilada de nossas artérias era a rua da Conceição, antiga rua do Caminho de Beber Água, a segunda rua de Natal, que descia até o riacho do Tissuru, Bardo ou Baldo, numa artéria única, até que a igreja católica a invadiu para ampliar a Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, dividindo-a em duas: Conceição e Santo Antônio.

Pois bem: nem a rua da Conceição foi tão mutilada quanto a avenida Getulio Vargas. Desta, nada sobrou diante dos dobrões do capital imobiliário, nem saudade deixou.

Levaram nossa história, sobraram os sobradões dos mais ricos e poderosos habitantes da Natalópolis que a memória abomina.

Esta foto é só parte da antiga Av.Atlântica que poucos conheceram e se lembram. Ela retrata uma novidade pra muitos (surpresa?), este Bar das Sombrinhas.

Nunca ouvi falar nesse Bar das Sombrinhas.

Pela foto, ficava à direita de quem sobe a Ladeira do Sol, ribanceira abaixo da balaustrada da Getúlio Vargas, antiga Avenida Atlântica.

Não parece ser o Mirante Praia Clube, inaugurado em 1975 pela Caern.

Sobre este, nos conta Itamar de Sousa:

"Durante o Governo Cortez Pereira, os dirigentes da CAERN organizaram o Mirante Praia Clube e construíram a sua sede à margem da pista da avenida Getúlio Vargas, na qual investiram cerca de 721 mil cruzeiros. O mencionado sodalício foi inaugurado festivamente no dia 14 de março de 1975 (Diário de Natal, 13 de março de 1975). Entretanto, em virtude de prejudicar a paisagem desta avenida e de obstaculizar o seu alargamento, o Mirante foi demolido entre o final do governo Tarcísio Maia e o início do governo Lavoisier Maia."

Nos conta Petit das Virgens, que o restaurante do “Mirante” ficou sob responsabilidade de Alcione Dowsley, empresário que criou o primeiro motel de Natal e que ficou famoso pelo uso criativo dos primeiros outdoors de nossas avenidas: Tahiti, o paraíso é aqui! Entre muitos outros apelos que se popularizaram e caíram no gosto popular.

Mas a estória aqui é outra: alguém tem notícias sobre a história desse Bar das Sombrinhas que nos possa contar?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Romário: A ignorância é parceira da corrupção


Parte de entrevista de ROMÁRIO ao jornalista Cosme Rimoli - TV Record .

- Você foi recebido com preconceito em Brasília?

Olha, vou ser claro para quem ler entender como as coisas são. Há o burro, aquele que não entende o que acontece ao redor. E há o ignorante, que não teve tempo de aprender. Não houve preconceito comigo porque não sou nem uma coisa nem outra. Mesmo tendo a rotina de um grande jogador que fui, nunca deixei de me informar, estudar. Vim de uma família muito humilde. Nasci na favela. Meu pai, que está no céu, e minha mãe ralaram para me dar além de comida, educação. Consciência das coisas... Não só joguei futebol. Frequentei dois anos de faculdade de Educação Física. E dois de moda. Sim, moda. Sempre gostei de roupa, de me vestir bem. Queria entender como as roupas eram feitas. Mas isso é o de menos. O que importa é que esta sede de conhecimento me deu preparo para ser uma pessoa consciente... Preparada para a vida. E insisto em uma tese em Brasília, com os outros deputados. O Brasil só vai deixar de ser um país tão atrasado quando a educação for valorizada. O professor é uma das classes que menos ganha e é a mais importante. O Brasil cria gerações de pessoas ignorantes porque não valoriza a Educação. E seus professores. Não há interesse de que a população brasileira deixe de ser ignorante. Há quem se beneficie disso. As pessoas que comandam o País precisam passar a enxergar isso. A Saúde é importante? Lógico que é. Mas a Educação de um povo é muito mais.

- Essa ignorância ajuda a corrupção? Por exemplo, que legado deixou o Pan do Rio?

Você não tenha dúvidas que a ignorância é parceira da corrupção. Os gastos previstos para o Pan do Rio eram de, no máximo, R$ 400 milhões. Foram gastos R$ 3,5 bilhões. Vou dar um testemunho que nunca dei. Comprei alguns apartamentos na Vila Panamericana do Rio como investimento. A melhor coisa que fiz foi vender esses apartamentos rapidamente. Sabe por quê? A Vila do Pan foi construída em cima de um pântano. Está afundando. O Velódromo caríssimo está abandonado. Assim como o Complexo Aquático Maria Lenk... É um escândalo! Uma vergonha! Todos fingem não enxergar. Alguém ganhou muito dinheiro com o Panamericano do Rio. A ignorância da população é que deixa essa gente safada sossegada. Sabe que ninguém vai cobrar nada das autoridades. A população não sabe da força que tem. Por isso que defendo os professores. Não temos base cultural nem para entender o que acontece ao nosso lado. E muito menos para perceber a força que temos. Para que gente poderosa vai querer a população consciente? O Pan do Rio custou quatro vezes mais do que este do México. Não deixou legado algum e ninguém abre a boca para reclamar.

- Se o Pan foi assim, a Copa do Mundo no Brasil será uma festa para os corruptos...

Vou te dar um dado assustador. A presidente Dilma havia afirmado quando assumiu que a Copa custaria R$ 42 bilhões. Já está em R$ 72 bilhões. E ninguém sabe onde os gastos vão parar. Ningúem. Com exceção de São Paulo, Rio, Minas, Rio Grande do Sul e olhe lá...Pernambuco... Todas as outras sete arenas não terão o uso constante. E não havia nem a necessidade de serem construídas. Eu vi onze das doze... Estive em onze sedes da Copa e posso afirmar sem medo. Tem muita coisa errada. E de propósito para beneficiar poucas pessoas. Por que o Brasil teve de fazer 12 sedes e não oito como sempre acontecia nos outros países? Basta pensar. Quem se beneficia com tantas arenas construídas que servirão apenas para três jogos da Copa? É revoltante. Não há a mínima coerência na organização da Copa no Brasil.

- São Paulo acaba de ser confirmado como a sede da abertura da Copa. Você concorda?

Como posso concordar? Colocaram lá três tijolinhos em Itaquera e pronto... E a sede da abertura é lá. Quem pode garantir que o estádio ficará pronto a tempo? Não é por ser São Paulo, mas eu não concordaria com essa situação em lugar nenhum do País. Quando as pessoas poderosas querem é assim que funcionam as coisas no Brasil. No Maracanã também vão gastar uma fortuna, mais de um bilhão. E ninguém tem certeza dos gastos. Nem terá. Prometem, falam, garantem mas não há transparência. Minha luta é para que as obras não fiquem atrasadas de propósito. E depois aceleradas com gastos que ninguém controla.

- O que você acha de um estádio de mais de R$ 1 bilhão construído com recursos públicos. E entregue para um clube particular.

Você está falando do estádio do Corinthians, não é? Não vou concordar nunca. Os incentivos públicos para um estádio particular são imorais. Seja de que clube for. De que cidade for. Não há meio de uma população consciente aceitar. Não deveria haver conversa de politico que convencesse a todos a aceitar. Por isso repito que falta compreensão à população do que está acontecendo no Brasil para a Copa.

- A Fifa vai fazer o que quer com o Brasil?

Infelizmente, tudo indica que sim. Vai lucrar de R$ 3 a R$ 4 bilhões e não vai colocar um tostão no Brasil. É revoltante. Deveria dar apenas 10% para ajudar na Educação. Iria fazer um bem absurdo ao Brasil. Mas cadê coragem de cobrar alguma coisa da Fifa. Ela vai colocar o preço mais baixo dos ingressos da Copa a R$ 240,00. Só porque estamos brigando pela manutenção da meia entrada. É uma palhaçada! As classes C, D e E não vão ver a Copa no estádio.

O Mundial é para a elite. Não é para o brasileiro comum assistir.

- Ricardo Teixeira tem condições de comandar o processo do Mundial de 2014?

Não tem de saúde. Eu falei há mais de quatro meses que ele não suportaria a pressão. Ser presidente da CBF e do Comitê Organizador Local é demais para qualquer um. Ainda mais com a idade que ele tem. Não deu outra. Caiu no hospital. E ainda diz que vai levar esse processo até o final. Eu acho um absurdo.

- Muito além da saúde de Ricardo Teixeira. Você acha que pelas várias denúncias, investigações da Polícia Federal... Ele tem condições morais de comandar a organização Copa no Brasil?

Não. O Ricardo Teixeira não tem condições morais de organizar a Copa. Não até provar que é inocente. Que não tem cabimento nenhuma das denúncias. Até lá, não tem condições morais de estar no comando de todo o processo. Muito menos do futebol brasileiro...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

HISTÓRIA MAL CONTADA

foto: Emanuel Amaral, TN
HISTÓRIA MAL CONTADA
Cassiano Arruda Câmara
Novo Jornal, 30 de novembro de 2011


Nossa Câmara Municipal que não tossiu nem mugiu diante da derrubada do Estádio Machadão – o “poema de concreto” – fruto do talento de um arquiteto natalense autor de um projeto que marcou a cidade por mais de trinta anos, como marca destacada de sua paisagem, decidiu “preservar” o desativado estádio Juvenal Lamartine definindo-o como “Patrimônio Histórico, Cultural, Arquitetônico e Esportivo de Natal”.

Numa cidade que tem mais da metade de sua área total vedada a qualquer tipo de ocupação, os nossos edis saíram dos seus cuidados para defender o que classificam como monumento arquitetônico.

Faltou algum embasamento técnico capaz de justificar essa decisão, começando pela definição de um estilo. Qual? – Sua fachada, na verdade um autêntico puxadinho inventado nos últimos
anos, amontoando uma série de bibocas e lojinhas, projetada por algum mestre de obras anônimo?

Ou será a velha arquibancada de madeira, que tem andado interditada pela falta de segurança para algum uso? Quem sabe se o “túnel” ligando os vestiários ao campo de jogo, realizado por João Machado, já no apagar das luzes do velho estádio, quando este já estava empenhado na construção de novo (já demolido) e que por todas as justificativas tinha o seu nome?- Fora isso existe um quadrilátero de arquibancadas, construídas em diferentes momentos, iguais a tantas outras – aqui e alhures – de um tempo onde não havia maior preocupação no projeto de estádios de futebol.

Ou será o campo de jogo? O reconhecimento da importância de duas traves, em nada diferente de dezenas de outras existentes em Natal e no mundo todo, ou o mal tratado gramado, nunca reconhecido – nem mesmo na sua época áurea – como sendo algo a merecer destaque?

Do alto de sua prosopopéia, o vereador George Câmara do PC do B pontifica de maneira tão solene como indefinida: “Essa matéria é um olhar para a história. O olhar que tem o setor imobiliário é outro, pois naquela região muitos prédios já foram instalados. As imobiliárias não tem que preservar o papel histórico do Juvenal Lamartine”.

O representante comunista não esclareceu se é contra a construção de prédios, que são construídos em todos os lugares, mesmo na Albânia, ou na antiga União Soviética, ou mesmo na China de Mao Tsé-Tung
, ou na Cuba dos irmãos Castro, onde a conservação dos antigos edifícios tornou-se bastante deficiente no “período especial”, determinado pelo embargo americano.

Também não esclarece o olhar de qual história. Na verdade, os nomes que fizeram essa história nunca foram tão esquecidos.

Craques como Jorginho, Ribamar, Gerim, Cuíca, Pedro Bala, o mossoroense Dequinha, Abel, Burunga, Biró, Geri, Walace Saquinho, o depois prefeito Djalma Maranhão, Miro Cara de Jaca, treinadores como Álvaro Barbosa, Edésio Leitão, Pedrinho Quarenta ou árbitros como João Cadmo Cavalcanti, Luiz Meireles ou Jader Correia, e tantos e tantos outros, não mereceram dos nossos desportistas, nem muito menos dos nossos vereadores (nem mesmo nessa legislatura campeã na fabricação de leis – a maioria que não saiu nem vai sair do papel) qualquer iniciativa para que esta história venha a ser preservada.

Por que em vez de tentar criar uma importância que não existe, não se pensa em algum próprio público (quem sabe o nunca usado Presépio de Natal) um lugar onde se colocasse um pouco da
memória do nosso futebol, aproveitando – por exemplo – o acervo de Luiz GM Bezerra?