sexta-feira, 20 de maio de 2011

SILÊNCIO ESQUISITO


Um dia falaram em Copa do Mundo no Brasil. Natal candidatou-se como alternativa para uma das chaves. Ganhou. Aí, entrou o senhor tempo. Quase 40 anos depois da festa que levantou Natal, o Machadão começou a viver seu pesadelo.


A Fifa pediu um projeto de adaptação do estádio para os jogos da Copa. Projeto feito, de princípio aprovado, depois o silêncio torturante, esquisito.

Um nome, anunciado em seguida, o condenou ao desaparecimento. Chegou a Arena das Dunas.

Agonia e morte anunciada, sem muita explicação, sem discussão, torcida, clubes e população descartadas.

O reinado do belo Machadão foi por pouco tempo. Um edital e a chegada da construtora selaram a sentença.



JUVENAL LAMARTINE, DE VIRADA, VAI SOBREVIVER
Albimar Furtado
Novo Jornal, 20 de maio de 2011
http://www.novojornal.jor.br/edicaododia/Caderno_01.pdf

O TEMPO, EIS um senhor surpreendente. Impacta na política, na evolução histórica, no amor, revela heróis e vilões, às vezes ágil, apressado, outras sábio, sutil.

Neste espaço que ocupo às sextas-feiras já falei da agonia do Machadão, o chão lhe faltando dia após dia. Lembrei também do Juvenal Lamartine olhando, lá do Tirol, o martírio de seu algoz.

É a vida.

Fui testemunha, como repórter responsável pela cobertura dos eventos na sede do governo, de reunião preparatória para a inauguração do Castelão (homenagem descabida e injustificável), entre o governador Cortez Pereira e lideranças do futebol no Estado.

Um deles, o diretor do ABC, Bira Rocha, fez a sugestão aprovada à unanimidade. O primeiro ato do dia festivo começaria com uma despedida, o último jogo no Juvenal Lamartine. Terminada a partida e feitas as evocações próprias do momento, uma passeata conduziria todos, autoridades
e habitantes da planície, à nova maravilha da cidade, o novo estádio, o Castelão.

Quer dizer, fim de linha para o campinho do Tirol e começo de vida longa ao novo templo do futebol, capaz de reunir multidões.

A festa não foi exatamente assim e não lembro as razões.

JL e Machadão, um tinha o status de campo, o outro de estádio. Este seguia a trajetória prevista, motivo de curiosidade, bilheterias crescentes, seleções internacionais, desfile de grandes times e craques.

Recebeu o Atlético mineiro de Reinaldo, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Botafogo de Marinho Chagas e outros e mais outros e mais que todos juntos, o Santos de Pelé. Público de mais de 50 mil pessoas. De um lado, Pelé. Do outro, pelo ABC, Alberi. Um baita jogo que o Santos venceu por 2x1.

Nesse estádio a bola rolou, nos campeonatos estaduais, pelos pés divinos daquele mesmo Alberi, Hélcio Jacaré, Danilo Menezes, Fidelis, Ivanildo, Reinaldo, Scala, Sérgio, do capitão Edson e tantos e tantos.

Uns diziam que era o estádio das noites ensolaradas (até onde chegava a reverência que a ele se fazia), outros o definiam como poema de concreto.

E o Castelão, depois Machadão (aí, sim, a homenagem perfeita, incontestável, sem a necessidade
de explicação) seguia caminhada triunfal, orgulho dos nativos.

Passaram também por lá os grandes sucessos de bilheterias do mundo artístico brasileiro, forjados nos programas banbanbans da televisão. Sucesso a perder de vista, um mundão de tempo adiante.

Lá no pé do morro onde nascia Mãe Luiza, o Juvenal Lamartine, só e só, a tudo assistia em silêncio. Especulava-se o que seria feito dele.

O tempo foi seu aliado. Mergulhou, esqueceram dele, ficou sendo campo de jogo visto por ninguém.

Para consagrar a regra, uma noite foi aberto para Chico Buarque apresentar seu show, com a bilheteria sendo destinada a minimizar os flagelos da seca que castigava o Estado. E fim. Tão
esquecido ficou, que sequer se falava nele. Era, e ainda é, o patinho feio em meio a um comércio de lojas sofi sticadas que nascia e colégios de importância na educação do Rio Grande do Norte. Ficou lá, coração pulsando fraco, mas vivo.

Um dia falaram em Copa do Mundo no Brasil. Natal candidatou-se como alternativa para uma das chaves. Ganhou. Aí, entrou o senhor tempo. Quase 40 anos depois da festa que levantou
Natal, o Machadão começou a viver seu pesadelo.

A Fifa pediu um projeto de adaptação do estádio para os jogos da Copa. Projeto feito, de princípio
aprovado, depois o silêncio torturante, esquisito.

Um nome, anunciado em seguida, o condenou ao desaparecimento. Chegou a Arena das Dunas.

Agonia e morte anunciada, sem muita explicação, sem discussão, torcida, clubes e população descartadas.

O reinado do belo Machadão foi por pouco tempo. Um edital e a chegada da construtora selaram a sentença.

Quase múmia, o Juvenal Lamartine revive. Vira o jogo. Volta ao noticiário esportivo, é lembrado pelas autoridades, as pessoas, onde quer que se encontrem falam nele, sinal de que o campo do Tirol ainda vive.

Representantes do Governo foram visitá-lo e anunciaram que investirão em sua recuperação. É o mínimo que poderão fazer.

Antes, voltaram-se para a Copa e esqueceram que há um campeonato estadual. Que existem
América e Alecrim que ficarão sem campo para jogar e que participam de disputas nacionais.

E taí, o JL de novo, quase 40 anos depois, aparecendo como a solução. Será?

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